Gabryel Andryw perdeu o pai ainda criança e o tio que foi como um pai para o câncer. Sem gravadora e sem empresário, divide rotina entre trabalho e estudos, já tem músicas lançadas e busca vaga como ator.
RIO DE JANEIRO – O Rio de Janeiro é feito de histórias de superação. E uma das mais fortes dessa semana vem do morro. O nome dele é Gabryel Andryw, tem 19 anos, mas no palco e no estúdio todo mundo conhece como MC END. Cria da comunidade, trabalhador, estudante e artista independente, ele é a prova viva de que o CEP não define o tamanho do sonho de ninguém.
A história de Gabryel começa com uma perda muito cedo. Ele perdeu o pai quando ainda era criança. Tão cedo que só teve tempo de viver um único aniversário ao lado dele. Uma lembrança curta, mas que virou o combustível de uma vida inteira. Quem olha o jovem sorrindo hoje não imagina a saudade que ele carrega desde pequeno.
Se a primeira perda foi dura, a segunda quase o fez parar. Seu tio Wagner, aquele que na favela todo mundo chama de pai de coração, aquele que ensina, que dá conselho, que mostra o caminho certo, foi diagnosticado com câncer. Foi uma luta dolorosa, de meses, que toda a família acompanhou. Wagner não era só tio. Era exemplo. Era o homem que dizia que menino do morro pode sim sonhar grande, pode ser artista, pode estar na TV. Quando Wagner morreu, Gabryel sentiu o chão abrir pela segunda vez.

Muita gente na situação dele teria se revoltado. Teria largado os estudos, teria escolhido o caminho mais fácil da tristeza. Gabryel fez o contrário. Ele transformou luto em arte. Transformou saudade em letra. Transformou dor em música. Foi aí que nasceu o MC END.
O nome não foi escolhido à toa. END, em inglês, significa fim. Mas para ele, significa recomeço. É o fim da ideia de que cria de favela tem que sonhar pequeno. É o fim do luto paralisado e o começo de uma carreira que ele está construindo com as próprias mãos, sem ajuda de ninguém.
No morro onde cresceu, o funk, o trap e o rap não são só música. São sobrevivência. São voz. E foi com essa voz que Gabryel começou a contar sua história. De forma totalmente independente, sem gravadora, sem empresário e sem dinheiro de fora, ele já lançou suas primeiras músicas nas plataformas digitais. E quem ouve percebe na hora a diferença: não é ostentação vazia. É verdade. É letra que fala de perda, de luta, de trabalho, de fé e de superação. É o funk consciente que o Rio precisa ouvir.
A rotina do MC END é o que mais impressiona quem conhece sua história. Aos 19 anos, ele faz o que muito marmanjo não faz. De manhã, trabalha. Porque no morro ninguém pode ficar só sonhando, tem que pagar conta, tem que ajudar em casa, tem que ser homem. De tarde, estuda. Porque ele sabe que só talento não ganha mercado, tem que ter preparo.

E de noite, quando a maioria dos jovens está no baile ou descansando, ele vira artista: escreve, compõe, grava com o celular, edita no computador que tem, posta na internet, divulga e vai atrás de oportunidade. Tudo sozinho.
E agora, o jovem que já venceu na música independente quer mais. Quer um novo desafio, que para ele é o maior de todos: virar ator.
“Vim de onde muitos acham que os sonhos precisam ser menores, mas eu nunca aceitei isso. Talvez a vida tenha tirado muito de mim, mas não conseguiu tirar minha vontade de vencer. Eu cheguei até aqui. E agora quero mostrar até onde posso chegar”, diz Gabryel, com uma maturidade que surpreende para um garoto de 19 anos.
O sonho de atuar não é por acaso. Quem já viveu o que ele viveu já sabe interpretar sem precisar de curso. Ele sabe o que é dor, o que é saudade, o que é ter que segurar o choro para ser forte pela família. E é essa verdade que ele quer levar para os palcos, para as novelas, para as séries e para o cinema nacional.
O JORNAL RIO apurou que Gabryel já está se preparando para testes de elenco em produtoras e agências do Rio. Ele quer uma chance para mostrar seu talento. Ele não quer que deem nada de graça. Ele só quer a oportunidade de fazer um teste. De mostrar que o menino do morro pode sim dar vida a personagens fortes, com história e com emoção.
A história de MC END é a história de milhares de jovens cariocas. Jovens que perdem parentes cedo, que crescem sem pai, que veem gente querida ir embora para a doença ou para a violência, mas que não aceitam ser definidos pela tragédia. Jovens que querem ser definidos pela superação. E é por isso que a história dele importa tanto para o Rio de Janeiro.
Hoje, o mercado cultural carioca procura exatamente isso: verdade. As novelas e as séries da TV não querem mais atores que precisam pesquisar no Google o que é favela. Querem gente que viveu a favela, que sabe o que é comunidade, que tem sotaque, que tem vivência. E Gabryel tem tudo isso. Ele tem o que nenhuma escola de teatro do mundo ensina: a vida real.
Quando canta, MC END não está só cantando. Ele está mandando um recado para todo jovem do Rio: “Se eu consegui transformar minha dor em música, você também consegue”. Ele quer que o moleque da comunidade se veja na TV e pense: se ele, cria como eu, chegou lá, eu também chego.
Sem patrocínio, sem padrinho, sem atalho, Gabryel Andryw segue na luta. Já tem músicas lançadas, já está estudando teatro e já está batendo na porta de produtoras. Sabe que vai ouvir muitos “nãos”. Mas quem já superou a morte do pai e do segundo pai não tem medo de ouvir um não em um teste de elenco.
MC END não é só um nome artístico. É um recado para a cidade do Rio de Janeiro. É o fim da ideia de que o futuro dele já estava escrito. É o começo de uma nova história, escrita por ele, com as próprias mãos, com lágrimas e com muita vontade de vencer.
Aos 19 anos, esse cria do morro já chegou até aqui. E pelo que o JORNAL RIO viu, esse é só o começo do tamanho do lugar onde ele pode chegar. O Rio precisa conhecer o MC END. Porque o Rio é feito de gente como ele.
Por Leandro Souza, Jornalista | Especial Novos Talentos e Cultura