Denise Peixoto
Por meio de versos engajados, a autora de Macaé (RJ) transforma a dor histórica e o cotidiano em um manifesto vibrante pela dignidade, identidade e resistência negra no Brasil.
Em um cenário onde a literatura atua como ferramenta de transformação social, a petroleira aposentada e escritora macaense Conceição de Maria reafirma sua importância com a 2ª edição, revisada e ampliada, da obra “Travessia”. Lançado pela Editora Revista África e Africanidades, o livro é um mergulho profundo na alma negra e nas feridas ainda abertas do racismo estrutural no Brasil.
O título, “Travessia“, carrega um peso simbólico que atravessa os séculos. Segundo o prefácio da obra, a autora utiliza sua escrita para percorrer o trágico caminho do tráfico atlântico — que arrancou corpos, raízes e culturas de seus lares originais — até o Brasil contemporâneo, onde a segregação étnico-racial se camufla sob novas roupagens.
A escrita de Conceição de Maria não é apenas poética; é um ato de resistência. Ao romper o silêncio com versos que clamam por respeito e liberdade, ela faz a transição da “boca amordaçada para a revolução da palavra engajada”. Cabe destacar que a escritora possui uma consolidada trajetória de ativismo dentro dos movimentos dos direitos dos trabalhadores, sendo ex-diretora do Sindipetro-NF e militante do Movimento Negro na região Norte Fluminense.
A obra é composta por uma coletânea de poemas que abordam temas cruciais da realidade brasileira.
Questões de identidade e ancestralidade são trazidas, por exemplo, em poemas como “Essência” e “Preta, Pretinha”, nos quais a escritora explora a busca pela valorização dos traços negroides e o orgulho de se afirmar negra em um país que, historicamente, tenta mascarar essa identidade.
A autora não se furta de denunciar a violência institucionalizada. Em textos como “Cada dia tomba um” e “Mar-é”, ela homenageia vítimas do racismo e da desigualdade, como Marielle Franco e Miguel, transformando a dor em memória e luta ativa.
Para Conceição de Maria, a libertação não é um projeto individual. Seu texto convida ao coletivo, chamando os leitores a “atravessarem oceanos de preconceitos” para alcançar horizontes mais humanos, igualitários e, acima de tudo, libertários. É dentro deste contexto de coletividade e forte representatividade que a escritora recentemente tomou posso como integrante da Academia Macaense de Letras (AML) e vem participando de forma marcante em oficinais literárias, palestras junto ao público leitor, festivais e feiras literárias pelo estado do RJ.
“Travessia” é um manifesto à vida. Ao ler Conceição de Maria, somos convidados a questionar os modelos impostos de beleza e comportamento e a resgatar valores da ancestralidade e da simplicidade.

O livro encontra-se à venda em sites como Amazon e Estante Virtual.
A obra de Conceição de Maria é um convite imperdível para todos que buscam entender as complexidades do Brasil através de uma lente atenta, crítica e profundamente humana. É uma leitura obrigatória para quem deseja valorizar as raízes africanas e se somar à construção de um “novo amanhã”.











